Can you hold on while I take hold of myself ?

Eu estava deitado na cama de solteiro.

Ela, sentada na ponta e de costas pra mim, folheava um encarte de CD em tons brancos e violetas.

No micro system a nossa frente, Saving Grace tocava. Eu não sabia de que música se tratava, também não estava interessado. A voz daquela mulher ao fundo, servia apensas de trilha sonora para aquele momento em que eu só tentava alcançar o cheiro que vinha daqueles cabelos amarelos próximo a mim.

O cd continuou a tocar.

Eu fechei meus olhos e deixe-me guiar pela música e pelos pensamentos maldosos e instintivos que pairavam dentro de mim. Era janeiro de um novo ano. Não estávamos sós naquela casa, vez por outra alguém passava pelo corredor e reparava na cena. Eu me atrevi e deitei a cabeça no seu colo. Começamos juntos a acompanhar letra por letra, tentando cantar a melodia com nosso inglês infantil, ousando traduzir as frases mais curtas.

Uma prima minha, que passava o verão conosco, respondia-nos aos questionamentos sobre aquela banda. Passamos um bom tempo ali. O Bury The Hatchet não cessava um só instante. Eu, então, tive a certeza de que tal som não sairia mais da minha vida. O medo que tinha, porém, era admitir que estava apaixonado por minha amiga.

Pra minha sorte, aquele amor fora correspondido.

Apaixonamo-nos os três simultaneamente. Eu por ela. Ela por mim. Nós pela banda.

Era meu primeiro desvario amoroso. Eu não sabia como reagir. E passei aquele mês intenso, cheio de atropelos, ao lado dela, dividindo meu tempo entre beijos, suspiros, indagações e música.

As coisas passaram a se intensificar. Adquirimos os álbuns anteriores, sem esquecer aquele o qual tínhamos um carinho especial. O que nos aproximou definitivamente.

Nossas declarações eram pautadas naquelas músicas. Ouvi-la ao telefone por vezes, cantarolando pra mim era algo que despertava alegria incomensurável. Retribuir seu carinho e dizer que a amava era pouco.

Um ano mais tarde, quando tive que sair de minha cidade natal para estudar, passar dias sem vê-la não era confortável nem estava sendo suportável. Após a segunda semana de aulas eu já não era mais o mesmo. Estar ao seu lado apenas no final de semana era pouco para alguém que sentia o que eu estava sentindo pela primeira vez.

Abandonar tudo por ela foi o mínimo que eu fiz. E de volta pra casa, desembarco com o Stars na mão, fortalecendo ainda mais nossos sentimentos e tietagem.

 

Um amor adolescente que me deixou marcas até o presente.  E não me envergonho disso. Outras por mim já passaram, diversas bandas integraram minha bagagem durante essa década.

Mas é indissolúvel!

Ouvir qualquer canção do Cranberries que seja e não me remeter àquela época.

Época na qual sempre tivemos o mar e a voz de Dolores para nos embalar. E mesmo nos momentos conturbados, que foram poucos e insignificantes, era com aquele som que me pegava com os olhos lacrimejando.

Certa vez, ao som de I’m Still Remebering juramos nosso amor eterno e nos prometemos realizar dois sonhos que selavam nosso pacto: iríamos juntos subir ao altar e, da mesma forma, assistiríamos ao show do Cranberries em algum lugar da Terra, seja lá em qual era for.

A última vez que nos falamos, nós não éramos mais um só. Ainda sim, gelei ao ver que ela me ligava. Não era pra volta e eu também nunca tive essa esperança nem desejo. Do mesmo jeito que me recordo de tudo, acontecia com ela, certamente. Linger estava na trilha sonora do filme Click e após desligar o celular, a certeza de que “tudo permanecerá entre nós” se fez presente. Segundo suas próprias palavras…

E hoje, acendendo mais um cigarro, tornando a ouvir Savin Grace, tentando não deixar a piola cair sobre o teclado, me parte o coração só de saber que, finalmente, iremos realizar aquilo que sonhávamos e almejávamos tanto, por todos os anos em que estivemos juntos.

Por incrível coincidência, ou não, eu aguardo pavorosamente pela sexta-feira, quando as duas metades de nosso sonho se realizarão.

Ela, por sua vez, cumpre o pacto meio torto.

Dia 22 de outubro de 2010 eu estarei de frente pro palco vendo  The Cranberries.

Não com ela.

Nesta mesma sexta-feira, ela estará de frente para o padre, unindo-se em matrimônio.

Não comigo.

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~ por automidia em 10/19/2010.

16 Respostas to “Can you hold on while I take hold of myself ?”

  1. Cara velho foda o texto, cara o blog parecer ser mt legal mesmo…:D

  2. Manuel, belo texto, gostei mesmo!!

    Achei muito legal esse trecho:

    Apaixonamo-nos os três simultaneamente. Eu por ela. Ela por mim. Nós pela banda.

  3. Legal seu texto!! Parabéns!!!
    🙂

  4. Caramba, que história.

    Muito bem escrita.

    Muito bem vivida.

    Parabéns pelo texto!

  5. Parabéns, meu caro!!!

  6. Caramba.. quase chorei lendo seu texto, cara heheheh
    Excelente!! O final é mágico, do ponto de vista literário.. Pena não ter se concluído da maneira como eu e todos os leitores gostaríamos que se concluísse…
    Mas, é por isso que eu falo sempre pra todo mundo: os amores passam, The Cranberries … NUNCA PASSA!!!

  7. Não consegui parar de ler sua história até a última linha. Eu vivi algo muito parecido. Muito mesmo. Amo Cranberries desde sabe-se lá quando, também vou ao show na sexta, mas Bon Jovi foi quem embalou o amor que eu vivi parecido com o seu, e há algumas semanas eu vivi o que vc vai viver amanhã. Fui ao show deles em SP e chorei ao escutar músicas que era minhas com outra pessoa.
    É um sentimento muito estranho de escutar músicas que eram suas com outra pessoa estando você (no meu caso) sozinha… São memórias que voltam, momentos que insistem em não sair de nossos corações. Foi bom exorcizar esse passado, mas assim como vc, sei que isso sempre vai voltar como uma névoa, uma memória feliz. Aproveite muito amanhã, farei o mesmo, assim como fiz com Bon Jovi. O tempo não volta e quando vc ver, o show acabou e estamos de volta à realidade. Curta aquele momento, ele vai ser único e com certeza inesquecível.

  8. Nossa…
    Eu chorei…
    Comecei a ler e o texto foi me envolvendo pela beleza das palavras, depois me partiu o coração…
    Mas sabe Manuel, qdo eu ouvi “when you’re gone” lá no show eu desabei a chorar… E uma moça que nunca vi, me perguntou se eu gostava mto da banda e se eu tinha esperado mto pra ver o show… Aí eu fiquei olhando pra ela e um filme passou pela minha cabeça naqueles poucos segundos entre a pergunta e a espera da resposta… Eu disse, “é… esperei a vida toda”. Eu qria falar e não consegui, pq qdo escuto a música lembro de tanto perrengue já passei. E a banda tocava aquilo que sentia nesses tempos supracitados e nas lutas da vida.
    Acho que vc vai chorar e vai entender melhor oq qro dizer. Mas é lindo, não é triste! É Sublime!
    Pra vc, desejo um ótimo show! Viva todas as suas emoções verdadeiramente, pq é bom saber que pessoas como vc vão ao show.
    ^^

  9. Parabéns!!!! Belíssimo texto!!!!!

  10. Parabéns pelo texto ,que emocionante!

  11. Manuel
    Você me fez chorar, cara! De verdade!

    E é tão verdade que, em 1994, quando Linger estorou nas paradas e na novela A Viagem, simultaneamente eu me apaixonava pela primeira vez. E até hoje, quando eu ouço a música, me recordo de todo aquele sentimento fresco e juvenil.

    Foi um amor platônico: Eu gostava dele, e ele não sabia da minha existência. Fiquei 3 anos interruptos nesse mundinho. Até que um belo dia, vi aquela cena, digna de citar um pequeno trecho da canção:

    “So why were you holding her hand?”

    Por isso que eu falo: todo mundo tem um momento, namoro, caso com alguém e que alguma música dos Crans embalou.

  12. Esse texto me fez fazer uma viagem no tempo… Sempre gostei de músicas e de bandas.Sou daquelas fãs que deliram,que sonham com os shows, que curte cada momento.Adorei seu texto,ele é cheio de vida! Quando você citou ‘I’m Still Remebering’ me veio à tona na mesma hora ‘Kurt Cobain’ líder so Nirvana, essa música foi feita pra ele!

    Parabéns Manuel,seu texto foi bem escrito,com tiradas inteligentes.Gostei bastante da leitura que fiz!

    Beijos de Agnes…

  13. Se a história for true… tem nada n, vamos ver Dolores dia 22!
    ;p

  14. Muito lindo, agora que to vendo , foi real sua historia neh?
    Que massa…

    Se preocupa n, se vc tiver na pista comum, vou te ver chorando, e eu com certeza vou chorar em ” suddenly something has happened to me…”
    kkkkkkkkkkkkkk

  15. Me emocionei de verdade, Manuel, caraca… Linda e triste, sua história de amor. Pelo menos o amor à banda, por ser caso unilateral, a gente pode nutrir pra sempre, né?

    Aproveita bastaaaaante seu momento hoje, curta muito e lembre-se das coisas boas. Quem sabe outro amor não surge, abençoado novamente pelo Crans, hein?? 😉

  16. Que fofo!

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