Do Funk ao Choro

Embora eu prefira escrever ao invés de digitar, esse é o primeiro post desse blog que assim faço. Tenho uma boa razão pra não estar agora dentro de casa, na frente do PC.

Ao subir as escadas agora a pouco, vi-me obrigado a retornar à varanda e parar para contemplar o que meus ouvidos captavam. E aqui sentado, com lápis e papel na mão começo a escrever.

Imagem1639

Um violão de sete cordas, um cavaquinho e uma flauta executam majestosamente um choro.

O violeiro que dedilhava seu instrumento é meu primo. E agora começo a viajar de volta a nossa infância e recordo-me da veia musical que sempre nos acompanhou. A mim, pelo menos, outros caminhos foram mostrados, e alguns deles eu segui.

Esse despertar da musicalidade se deu de forma engraçada e eu acredito que mereça ser relatada.

Quando éramos crianças, influenciados pelo bombardeio do funk carioca, que naquele momento invadia o país de norte a sul, montamos a nossa própria dupla de MCs.

Escolhíamos o repertório, ensaiávamos ouvindo fitas K7 numa antiga radiola de nossa avó, sob gritos e ameaças de castigo.

Gravávamos nossos álbuns – quer dizer fitas – em um rádio de dois decks que minha mãe tinha no quarto. Os baldes e outros utensílios domésticos serviam de percussão na batida.

E quando o assunto era produção, eu já começava a me encantar.

Até que eu gostava de cantar, batucar (e há até quem diga que eu não sou tão desafinado assim), mas eram os encartes das fitas o que mais me consumia.

No final da minha rua, havia um pequeno estúdio de fotografia, desses que o fotógrafo vai onde quer que seja pra clicar alguém.

Para ilustrar o primeiro trabalho, contratamos esse serviço e pousamos para suas lentes. Lembro-me que rasguei um livro de ciências quase todo, cortando letras dos títulos dos capítulos para formar o letreiro da nossa capa.

Chegamos a gravar o segundo trabalho. E desse o titulo era  ‘Menor Carente’, em alusão à principal faixa do K7. Na elaboração da capa outro primo foi convidado a posar pra foto conosco.

Nós três caracterizados, com nossas camisas formando uma máscara ninja. Verdadeiros trombadinhas. Mas tudo em referência ao nome da obra.

Fazíamos várias copias das fitas e distribuíamos entre parentes e amigos.

É uma pena ter perdido todas as recordações materiais dessa passagem inusitada e criativa de minha infância, se bem que basta fechar os olhos enquanto o chorinho que vem aqui de baixo me transporta, e ao ver meu primo tocar, as lembranças se fazem presentes, mesmo que a gente tenha feito parte do movimento funk em outrora.

Ele continuou o caminho. Eu segui o meu. Mas basta ouvi-lo tocar que rapidamente uma encruzilhada trata de nos juntar de novo.

E eu como um expectador, claro.

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~ por automidia em 11/05/2009.

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