Onda de Fumaça no Ar

Nessa calmaria que me encontro agora, tendo apenas o volume baixo da rádio vindo de dentro do quarto da minha mãe e quebrando suavemente o silêncio, a inspiração bateu-me a porta pedindo pra escrever.

Rádio. Quando puxo pela memória, as primeiras lembranças que tenho me mostram um aparelho antigo, ligado na cozinha da minha avó e que eu escutava enquanto brincava com meu primo na garagem. Fazendo um esforço, é possível ainda ouvir a música que tocava. Era Caju e Castanha. Lembro-me das vozes dos dois emboladores. Mesmo se esquecesse, a imitação que eu e meu primo fazíamos enquanto a música era executada jamais sairá da minha cabeça.

Paixão por esse meio eu sempre tive. Era diferente da minha relação com a televisão. O rádio parecia mais próximo, mais possível. A TV pra mim era algo pra se admirar.Imagem1343

Quando criança não imaginaria que rumo tomaria, mesmo com a vocação arrastando-me pelo braço.

Eu via o rádio como algo crível. Enquanto não sabia administrar tecnologias usava a imaginação. Amiguinhos reunidos em casa. Eu acomodava todos diante de um lençol pendurado, o qual eu ficava por trás narrando historias que eu criava ou via na TV. As tampas das panelas, copos e o que mais eu visse pela frente, serviam de apoio na sonoplastia.

Com o passar dos anos, já na adolescência, aprendi a manipular os recursos acessíveis na época. Lembro que no quintal de minha casa, reunido com mais alguns poucos amigos, montamos um estúdio de rádio.

Os restos de um velho sofá branco, que meu irmão tinha ateado fogo tempos antes e iria pro lixo, serviam como as poltronas de nosso estúdio. Entre o sofá e outras cadeiras, ficava um velho rádio gravador com dois decks.

Tudo pronto para a gravação. Programa de variedades.

Mesmo desconhecendo a forma acadêmica e as técnicas de direção, que só viria seis anos depois quando entrei pra Universidade, sabia utilizar a linguagem. Aprendi aquilo vendo, quer dizer, ouvindo todos os dias.

Fato curioso era que o nome do programa fugia a tudo o que fazíamos. Durante a atração, entrevistávamos alguns amigos, mandávamos mensagens de amor do nosso vizinho, dono de uma ótica, pra sua suposta amante e executávamos músicas.

Nessa minha rua, existia a sede de um jornal. Pra ser mais preciso, era na mesma calçada de minha casa. Em frente à casa de um desses amigos que fundou a rádio comigo.

No jornal havia um cara que, naquele remoto tempo, aparentava ser estranho. As meninas viviam encantadas com ele. O porquê eu não sei. E a gente morria de ciúmes.

Batizamos nossa brincadeira de Rádio da Erva.

Era meio que uma forma de chamar atenção e de provocar o cara estranho, toda vez que falávamos o nome da rádio ou colocávamos as fitas gravadas pra vizinhança escutar.

Esse cara era tatuado e fumava cigarros. O pior é que ele nunca nos fez mal algum.

Na verdade, ele nunca esteve nem aí pra nossa rádio, nem pra nenhum de nós.

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~ por automidia em 09/24/2009.

Uma resposta to “Onda de Fumaça no Ar”

  1. Pois é Mano,nossa rádio era mesmo muito boa,apesar de vocês dizerem que eu tinha a voz parecida com a de Jazom,eu adorava participar,e suspirei muito por esse cara estranho rsrsrsr.
    Adorei o seu Blog e gostei muito de relembrar esse tempo que era muito bom!
    Bjusssssssss

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