Culpa do Cd Player Quebrado

Cruzando o estado de litoral a agreste de carro, pude observar um fenômeno no mínimo curioso.

Por quantas vezes o nordestino é estereotipado pelo sotaque? Basta acompanhar qualquer que seja a novela, o seriado, filme ou qualquer outro que contenha um conterrâneo na trama.

No jornalismo televisivo, sugere-se que o sotaque seja mais abrandado, pra que quando uma matéria proveniente de alguma região for exibida em rede nacional, não se estranhem tanto o modo de falar do repórter.

Parece-me um pouco paradoxal. Tenta-se preservar a cultura de determinados povos ao mesmo tempo em que parecem querer homogeneizar até o sotaque.

Com o cd player do carro sem funcionar, constatação que veio logo após ele cuspir a mídia que acabara de inserir, só restou a boa e velha FM.                          Passando pelas cidades que surgia no caminho ao destino final, as várias estações de rádio se faziam presentes como companheiros da viagem. O crepúsculo ficava ainda mais esplêndido com a trilha em que se ouvia, exceto quando uma voz misteriosa interrompia a canção e causava arrepios na espinha dorsal.

Boa tarde Cumaru!

Mas não era um simples boa tarde. Por mais enfeitada que seja uma voz de locutor de FM, era uma boa tarde carregado de um sotaque estranho. Não o sotaque do agreste pernambucano e sim uma mistura de carioca com a risada macabra ouvida ao final da música Thriller, do saudoso Michael Jackson. Agora fica fácil de imaginar como ele falava.

Boa tarde Cumaru!

Mudar de estação era inútil. Seria preciso esperar passar por outra cidade para tentar ouvir seguinte rádio. O monopólio das estações em cada município parecia real ou se a culpa era do cd player que já não localizava as outras eu não sei. O sono e a preguiça de esticar o braço para zapear ajudavam a aceitação passiva daquela voz que ainda me perturba: Boa tarde Cumaru.

Agora já era noite e Cumaru tinha ficado pra trás.

Ansiedade pra mudar a estação depois do intervalo de chiados pelos lugares remotos que nem ao menos as antenas de rádio alcançavam, logo estaria ouvindo uma nova faixa do dial.

Um clássico do rádio brasileiro (coisa que Roquete Pinto nunca imaginou), os Toque de Amor da vida, presente em qualquer lugar. Músicas românticas acompanhadas de cartas ou bilhetes apaixonados, pedidos de correspondências que tentam sobreviver mesmo depois da disseminação dos chats e do fim do romantismo. Na cidade de Lajedo ou todo mundo se conhecia ou os ouvintes daquele programa se limitavam a uns sete, no máximo, pois eram os mesmos que interagiam com o locutor por toda aquela uma hora em que eu estava sintonizado. Por mais que o formato esteja defasado, não custava nada pensar em frases mais agradáveis do que aquelas feitas do tipo “se amar é viver, vivo porque te amo!”.

Uma pausa.

Voz do Brasil no ar.

Intervalo também na viagem. Entre banho, comida e um efêmero descanso a voz do locutor de Cumaru não me saia da mente. Sabia que pesadelos eu não teria, mas me serviu para refletir.

Seria necessário mesmo manter esse “padrão” vocal nas locuções? Algo que se aproximasse mais da realidade de cada comunidade faria do programa mais interessante. Ou não? É justamente esse empostamento vocal que transforma o locutor no ícone, algo meio que surreal?

Lembrei-me de Karla Almeida. Uma repórter da Globo NE que não perdeu o sotaque. Mesmo depois das sessões de fonoaudiologia que se submeteu, acredito eu. E olhe que mesmo as matérias dela em cadeia, são do mesmo jeito. Dá pra se reconhecer sem ao menos olhar pra TV, só ouvindo a locução. Acho significante.cd_player

Findados a Voz do Brasil e o descanso em Lajedo, a viagem prosseguia e a escolha de uma nova estação também. Na rádio, transmissões ao vivo de dois shows. Não, não. Simultaneamente parece impossível. Incompreensível. Mas por pouco não acontecia. O âncora que jogava pro repórter que não sabia o que entraria no ar. Escolheram ao vivo. Primeiro entra o show tal depois o outro. E assim foi feito. Acho que o diretor do programa estava ocupado tentando se agasalhar.

Tava louco querendo ficar diante daquilo que me era passado pelos fones do carro.

Minutos depois estava eu de frente pro palco. Era a penúltima noite do Festival de Inverno de Garanhuns.

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~ por automidia em 07/26/2009.

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