Edição Única

Antes de qualquer coisa, uma pergunta: se você trabalhasse em um grande jornal e seu chefe mandasse escrever uma matéria falando bem de um determinado assunto ou pessoa que você discordasse plenamente, arriscando perder o emprego caso não cumprisse o dever estabelecido. Botaria sua carreira na berlinda não exercendo tal tarefa ou passaria por cima de seus conceitos e mandava brasa na “puxação” de saco?

Guerra travada entre linha editorial e ética? Não é o que me parece.                                                                                                                                             A primeira consiste na visão da empresa (no caso os veículos de comunicação) sobre um assunto distinto e geralmente se usa um espaço reservado e indicativo de que o que se expressa ali não tem a menor cerimônia de ser imparcial. Já a ética, poderia dizer, à grosso modo, seria um conjunto de princípios e moral que se deve ter em toda profissão. Principalmente naquela dita formadora de opinião.

Bem, mas onde é que estou querendo chegar com todo esse discurso inicial?

Nos primeiro trimestre de minha sexta série resolvi criar uma publicação.        Manuscrita com canetas bic vermelha, azul e preta, um único exemplar. Continha capa, contracapa, matérias, sessão fotográfica e até carta dos leitores (imaginários, claro). O que eu não esperava, embora no fundo soubesse, é que aquela seria a primeira e única edição.

Confesso que não lembro com qual nome que batizei a obra. O destinatário foi um só. Pelo menos era pra ser. Mas não foi. A revista vazou e eu não tinha como negar minha autoria. Tava lá escrita de meu próprio punho. Pra quem não chegou a tê-la na mão, pensará o porquê de eu não ter me orgulhado de tal feito. Mas a bronca era justamente a linha editorial e a linguagem que eu segui.

A representante da turma, que se dizia minha amiga, levou à coordenadora para ela dá uma olhada. E era minha amiga, viu? Parecia que os leitores que surgiam forçosamente não eram o meu público-alvo. Das mãos da coordenadora pras mãos da diretora, e aí pra chegar lá em casa foi um pulo. Meus pais não ficaram nem um pouco lisonjeados com aquele editor que eles tinham debaixo do mesmo teto. Não inicialmente. Uma semana de suspensão assistindo Caça Talentos e a Fada Bela todos os dias.

O editorial da revista, que se espalhava desde a capa até os anúncios nas últimas páginas, não condizia com a temática pedagógica pra uma sala de alunos entre doze e treze anos, absolutamente. Ética? Muito menos. Nem tinha a noção do que era, mas sabia que estava bolando algo errado.

E retomando a pergunta, perdi meu cargo de editor-chefe e a direção de meu próprio veículo de massa. Minha consciência se apresentava nos dois papeis: o de querer fazer aquilo e o de que eu não poderia. Acabei concluindo o serviço.

A edição um, do ano um, seria a única também.

Ah, o conteúdo da revista?                                                                                                      O que se poderia esperar de um adolescente que ficava até altas horas de um sábado (sem trocadilhos com a Globo) pra assistir aos filmes de Emmanuelle na Band?

Atire a primeira pedra que nunca o fez.

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~ por automidia em 07/22/2009.

2 Respostas to “Edição Única”

  1. Muito bom texto____O final tá ilárioo,lembro bem de Emmanuelle!!
    ___srsrsrsrrrsrrs

  2. muito bom Mano !!!

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