Me dê sua força, Pegasus!

É com certo banzo que me recordo de um aparelho de TV grande que havia na sala. Era revestido de madeira, os canais mudavam à medida que se ia girando um botão grande do lado direito. Deveria ser a cores, embora o chiado e os fantasmas constantes não me deixassem bem identificar as mais primarias.

Estou falando do ano de 94 ou 95, mais ou menos. Acredito que como a grande maioria das crianças dessa época parava diante da televisão, mais precisamente no canal 6. A emissora era a extinta TV Manchete. O objeto de fascínio: Os Cavaleiros do Zodíaco.

Inebriado por aquelas aventuras, tantos poderes e pelo misticismo que carregava na mistura de astronomia, astrologia, mitologia e o entretenimento, é claro, fazia com que minha jovem mente, até então povoada pelos Ursinhos Carinhosos e Cavalo de Fogo, se prendesse a outro tipo de desejo televisivo.

Daí veio o desejo pelos objetos. Álbuns de figurinha, camisetas, chicletes, bonecos, entre outros, passaram a ser mais indispensáveis do que as cuecas de copinho que minha madrinha trazia das Lojas Pernambucanas pra mim. E se tratando dos bonecos…                                                                                                          Não lembro como os adquiria. Se insistia em casa para comprá-los, se ganhava de presente. Só sei que todos eu tinha. O primeiro da coleção foi o Fênix.  Depois todos os outros passaram a dormir junto de meu travesseiro também.

O que na verdade quero contar é como vivia apegado ao desenho e aquilo estava mudando meus hábitos mais ingênuos e infantis. Qual a finalidade dos bonecos? Obviamente a brincadeira. Até aí tudo bem. O que não estava bem era a angústia que começava a se criar dentro de mim todos os dias.

Chegava da escola. Jantava. Sempre gostava de café preto. Nem tomava mais na xícara, usava um copo grande. Ligava a televisão. Girava o grande botão até ouvir os acordes da trilha de abertura. Assistia. Desligava a TV. Pegava os bonecos e reproduzia exatamente o que acabara de ver. Os personagens que faltavam, usava um ursinho de meu irmão como substituto.

Depois de repetir todo episódio exibido, um tormento pairava sobre mim. Ainda era cedo e eu queria brincar mais. Mas eu não podia. Os bonecos voltam pra caixa e às vezes eu chorava com raiva. Não sei se de mim ou da curta duração do desenho. Eu queria continuar brincando. Olhava pra caixa. Cobria com o travesseiro, mas não ousava. Era com se tivesse traindo aquilo que me fascinava. O episódio do dia tinha acabado, e como se tivesse dentro da TV, fazendo parte de sua grade, não ousaria antecipar qualquer acontecimento. Eu teria que esperar até o outro dia pra poder brincar…

Minha reflexão é como a mídia é capaz de influenciar de várias maneiras as pessoas, principalmente as crianças. Meninas de sete anos de idade, por exemplo, repetem beijos vistos nos desenhos. Menino de pouco mais de cinco anos salva um bebê acreditando ser o Homem-Aranha.

É certo que as crianças não são iguais. Umas recebem diferente da outra a informação que vêem na TV, principalmente aquelas que têm o aparelho como bábá. A responsabilidade é absolutamente dos pais ou responsáveis, de fazer essa triagem. Se bem que eu nunca tentei pular da casa de minha vizinha, que era um primeiro andar, tentando imitar Seya, nem vivia dentro da geladeira para parecer com Hyoga. Meus desvarios infantis eram apenas a pressão de não poder vazar com as informações que a Manchete exibiria no dia seguinte, brincando com meus bonecos.

No final das contas, descobri uma maneira de amenizar meu martírio. Depois que os Cavaleiros voltavam pra caixa, eu saia e reunia os amigos no calçadão de uma padaria que ficava na esquina de minha casa e voltava a reproduzir o mesmo episódio, agora em carne, osso e arranhões. Meus amigos seguiam minhas coordenadas. Afinal, eu atuava, dirigia, fazia locução e os efeitos especiais com pedras e areia.

Tudo isso com o tempo foi passando. Os Cavaleiros do Zodíaco deixaram de ser tão primordial na transposição de minha infância para a adolescência, a TV Manchete sairia do ar nos próximos anos e finalmente meu pai foi sorteado num consórcio e a gente pode aposentar a velha TV de guerra.cavaleiros_zodiaco

Anúncios

~ por automidia em 07/21/2009.

3 Respostas to “Me dê sua força, Pegasus!”

  1. Sempre fosse problemático, manel! kkkkkk

  2. Tô com muito sono pra faze um comentáriooo sériooo_____
    Eu lembro q eu roubava dinheiro da minha mãe pra comprar os Chicletes dos Cavaleiros do Zodíaco que era pra colocar no album___srsrsrsrsrsrsr

  3. Lembro sim Mano, quando eu chegava em casa com o cabelo cheio de areia, por causa do X-Man, e as arranhadas e pauladas que levava de ti, quando vc era o vingador…kkkkk

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: